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Tema 3 - O amor visto por uma visão histórica e filosófica



Atualmente entende-se que o amor é uma poderosa emoção que implica uma intensa ligação a um objeto e uma grande valorização desse objeto. Em algumas acepções, contudo, o amor não implica, de todo, emoção, mas somente um interesse ativo no bem-estar do objeto. Noutras situações o amor é essencialmente uma relação que implica permutação e reciprocidade, mais propriamente que uma emoção. Além disso, há muitas variedades de amor, incluindo o amor erótico-romântico, o amor da amizade e o amor filantrópico. Além destas definições, o amor tem sido entendido por muitos filósofos como fonte de grande riqueza e energia na vida humana. Mas mesmo aqueles que exaltam a sua contribuição têm-no visto como uma potencial ameaça à vida virtuosa. Por esta razão, os filósofos na tradição ocidental têm-se preocupado em apresentar descrições da reforma ou "elevação" do amor, com vista a demonstrar que há formas de conservar a energia e a beleza desta paixão, ao mesmo tempo em que se eliminam as suas más consequências. Vamos analisar este contexto por partes:


1. O Amor como: emoção, relação, ação
Muitas vezes, embora nem sempre, o objeto é visto como algo de que alguém necessita na sua própria vida; por esta razão, o amor é muitas vezes relacionado com projetos de posse ou incorporação, e com emoções ciumentas para com o objeto visto como independente e capaz de frustrar as necessidades do amante. O filósofo Baruc Espinosa (1677) sustentou que o amor implica ter consciência do objeto enquanto algo que suscita o próprio bem-estar de alguém. Visto que todos os objetos particulares são, também, em virtude da sua separação do eu, capazes de frustrar o bem-estar, todo o amor, concluiu Espinosa, é essencialmente ambivalente, misturado com raiva e mesmo ódio. Pode-se, contudo, defender que o amor é uma emoção ou emoções, enquanto se insiste que estas emoções podem ser isentas de ciúme e desejo possessivo. Assim, Platão, no Fedro, concebe o amor como uma poderosa reação à beleza e ao mérito, que está estreitamente ligada, nas pessoas virtuosas, à veneração e ao temor; deste modo, respeita a separação do objeto e procura o seu bem. Estas considerações descrevem diferentes experiências, podendo ambas ser reais (como Platão, ao contrário de Espinosa, reconheceu).


Meus queridos, o amor não é apenas uma emoção: pode também ser um tipo de relação. Aristóteles, na Ética a Nicómaco, insistiu que o amor (da amizade) implica sempre conhecimento mútuo e benevolência recíproca. Embora qualquer descrição do amor necessite de abrir caminho para amores que não são correspondidos, ou que são dirigidos para objetos que não podem retribuir (como bebês ou alguns animais) ou que não podem fazê-lo tão claramente (como Deus), a insistência de Aristóteles na interação e na reciprocidade fornece um ingrediente importante para uma descrição normativa de muitos tipos de amor humano, quer da amizade quer romântico-erótico. Com efeito, a recusa em conceber o amor em termos relacionais é uma deficiência central em muitos casos de amor erótico, nos quais o objeto amado é, de fato, tratado como um objeto a ser possuído e imobilizado. Embora Proust pensasse que tais desígnios eram essenciais ao amor erótico, pode-se duvidar disto. Alguns amores podem não envolver, de modo algum, uma emoção forte. Kant (1797) insistiu que o "amor patológico" (amor que envolve uma emoção passiva) era inferior ao "amor prático", uma ligação ativa ao bem dos outros, incluindo emoções de respeito e preocupação. Quer concordemos quer não, devíamos reconhecer que este comprometimento prático ativo é um tipo de amor: o amor filantrópico, por exemplo, pode ser mais bem entendido desta forma. Os estóicos gregos acreditavam que mesmo o amor erótico podia ser repensado de uma forma que o tornasse compatível com a apatheia, impassibilidade, própria dos doutos. Seria um entusiasmo a\tivo acerca do bem-estar do objeto, sem as correntes da passividade angustiante que habitualmente caracteriza a ligação erótica.

2. Os Tipos de amor
Tanto no inglês, como o latim, tem apenas um único vocábulo para uma extensa família de experiências diferentes. Outras línguas, como o grego antigo e o japonês moderno, tornam as diferenças inequívocas desde o início através do uso de vocábulos diferentes. Mas, mesmo em inglês e latim, podemos distinguir diferentes espécies de amor. O amor erótico-romântico está estreitamente ligado ao desejo sexual, enquanto o amor da amizade aparentemente não está.

Considera-se frequentemente na era moderna que o amor dos pais pelos filhos e dos filhos pelos pais tem uma dimensão erótica; mas esta não era a perspectiva da maioria das culturas mais primitivas, nem é verossímil ser verdadeira em culturas onde os pais em boa situação financeira raramente viam os seus filhos. A cultura grega antiga considerou que o Eros era sexual, preocupado com a posse e potencialmente destrutivo; a philia, que podia prevalecer quer entre amigos quer entre parentes, era vista como mútua e recíproca preocupada com o bem-estar, e uma força cultural positiva. A ágape cristã é distinta de ambos estes amores pelo seu caráter essencialmente altruísta; o seu paradigma é a dádiva que Cristo fez da sua vida para a redenção da humanidade pecadora.

O amor de Deus ou dos deuses tem sido entendido de muitas formas diferentes. Os estóicos pensavam que amar Deus era amar o propósito racional que dá vida ao universo; tal amor era mais bem entendido como uma forma de pensamento ativo, sem qualquer receptividade emocional. O amor intellectualis dei, de Espinosa, segue este paradigma. Santo Agostinho, criticando a apatheia estóica, insistiu que uma forma de amor fortemente emocional, misturado com temor, culpa e dor, é mais apropriado a uma vida cristã. Muitos pensadores cristãos seguem a sua influência. As concepções judaicas do amor de Deus tendem a dar ênfase à ação correta, quer ritual quer ética. O moderno pensamento religioso continua estes debates.

3. As Diferenças Culturais
A maioria das sociedades abrange tipos e concepções de amor muito diferentes. Mas as diferenças multiculturais também complicam a análise. As sociedades diferem

a) no comportamento que consideram adequados numa relação de amor; assim, os amantes americanos modernos comportam-se publicamente de forma que teriam sido inconcebíveis na Índia do séc. XIX.
b) Nas regras que as sociedades ensinam a respeito dos objetos de amor adequados; assim, a Atenas do séc. V a. C. ensinava aos homens jovens que se esperava que eles tivessem fortes desejos eróticos quer por homens quer por mulheres; muitas culturas modernas não transmitem esta ideia.
c) Nas suas avaliações normativas das diferentes espécies do amor em si - discordando, por exemplo, sobre se o amor erótico é nobre ou indecoroso, bom ou mau. Pode-se esperar que todas estas diferenças moldem não somente os conceitos, mas também a própria experiência do amor.
d) Na taxonomia exata dos tipos de amor que a sua linguagem e forma de vida exibem e perpetuam. Por exemplo, o grego antigo Eros é imaginado como um terrível poder que domina a personalidade e faz que ela se fixe num objeto com uma intensidade irresistível. O seu objetivo é supostamente a posse do objeto. O amor palaciano medieval, em contraste, põe a ênfase na pureza ideal e afastamento do seu objeto e associa o amor a uma terna e cortês atenção para com esse objeto. Aqueles que, hoje em dia, perderam as crenças e as formas de vida que fundamentaram o amor palaciano não podem ter experiência daquela paixão exatamente.

4. Amor e bem humano: a elevação do amor
O amor é geralmente reconhecido como uma fonte de beleza e apreço na vida. Por esta razão, nenhum filósofo propôs a sua completa remoção. Mas considera-se também que acarreta várias dificuldades para a pessoa que aspira a uma vida reta e virtuosa. Uma preocupação é que o amor implica parcialidade: concentrando-se intensamente no apreço de um único objeto, a pessoa perde de vista as afirmações legítimas de outros objetos e metas. A segunda preocupação é com a excessiva indigência: permitindo a um único objeto tornar-se central para a sua vida, os amantes colocam-se a si próprios à mercê de acontecimentos que não podem controlar, sacrificando, deste modo, a sua dignidade e poder. Finalmente, em parte por causa desta passividade, o amor está muitas vezes ligado à raiva e vingança, quer contra o objeto amado quer contra um rival, ou ambos. Uma sociedade que quer reduzir a raiva e a violência pode ter, portanto, razões para desencorajar o amor.


Os filósofos na tradição ocidental têm, por conseguinte, estado preocupados com o projeto de construir uma reforma ou "elevação" do amor que nos permitiria conservar o seu mistério e beleza embora depurando os seus excessos deformadores. Para Diotima, no Banquete de Platão, a elevação implica centralmente a ideia de um objeto abstrato. Desde que alguém perceba que o objeto real do seu amor não é um corpo nem mesmo uma pessoa completa, mas a beleza que está alojada naquele corpo ou pessoa, então esse alguém pode começar um processo de reforma, comparado à subida de uma escada, através do qual, afinal, chega a amar toda a beleza no universo e, mais do que isso, a contemplar a forma imortal da própria beleza em toda a sua harmonia. Desta forma, os amantes tornam-se invulneráveis às vicissitudes da vida: o objeto do seu amor nunca os trairá ou desapontará. Os proponentes cristãos da "escada" do amor tendem a criticar o plano de Platão pelo seu objetivo de auto-suficiência pessoal. A modéstia genuína exige que se mantenha uma constante consciência da própria imperfeição e miséria. Os autores cristãos também se esforçam por manter o amor de indivíduos específicos como parte do amor purificado.

Espinosa regressou à proposta platônica para a reforma contemplativa do amor: concentrando-se na independência da mente de contingências externas, em última instância uma pessoa vem a amar a estrutura determinista do universo inteiro e a mente é libertada da passividade e ambivalência que caracterizam os afetos humanos. Uma notável interpretação moderna da tradição platônica pode ser encontrada em À la Recherche du Temps Perdu (À Procura do Tempo Perdido) (1914-27), de Proust, que afirma que cada um dos amores de um escritor é como um degrau numa escada que o conduz a formas superiores, nas quais, sozinho, o seu intelecto encontra conforto e deleite. Usando o próprio passado de dor e vulnerabilidade como matéria-prima para um trabalho criativo, supera-se a vulnerabilidade e alcança-se uma espécie de independência do tempo e da morte.

Nenhum destes reformadores gosta muito dos seres humanos reais. Por essa razão, esta tradição dá origem a uma contradição que tenta restituir aos seres humanos uma grande aceitação dos seus amores como eles são, vendo o próprio interesse na elevação como uma doença que necessita de cura. Muita desta tradição subsiste fora da filosofia. Um exemplo extraordinário é o Ulisses (1922), de Joyce, que divertidamente vira de pernas para o ar a escada de Diotima, sugerindo que é somente na emoção inconstante e imperfeita que o amor verdadeiro pode ser encontrado. Ao conectar o idealismo religioso ao anti-semitismo e o amor pelo corpo, de Bloom, a um amor filantrópico geral, Joyce sugere, também, que a tradição de elevação pode ser a causa dos ódios sociais, em vez de a sua cura.

Questionário para entregar (perguntas, respostas e capa)

9º Ano – Ensino Fundamental II
1. Observando a leitura completa do texto qual a conclusão o autor procurou passar para o leitor? Justifique.
2. Porque na visão dos filósofos o amor tem visto como uma ameaça a vida virtuosa?
3. Observando no texto a visão de Kant sobre o amor patológico e o amor prático, defina-os.
4. Baseando-se na leitura do texto aponte quais os possíveis significados etimológicos da palavra amor e seus significados.

1º Ano – Ensino Médio
1. Pesquise sobre a obra de Platão denominada de Fedro, citando seus principais aspectos e qual a sua mensagem central dentro do mundo científico.
2. Como Aristóteles concebe a amor? Pesquisa alguns trechos da obra “Ética a Nicômaco” que justifique sua conclusão.
3. Analisando o texto como podemos definir a concepção do amor de Espinosa e Platão?
4. Observando a leitura completa do texto qual a conclusão o autor procurou passar para o leitor? Justifique.
5. Como o texto apresenta a visão do filósofo medieval Santo Agostinho sobre o amor? No que esta visão destoa da visão dos Estóicos?

2º Ano – Ensino Médio
1. Segundo o texto as sociedades ser divergem ou convergem nas concepções sobre o conceito de amor? Justifique sua resposta.
2. Por quais razões as ciências filosóficas procuram ao longo da história explicar a muitas vezes descartar a valorização do amor como sentimento? Justifique.
3. Quais as semelhanças segundo o texto da visão do amor de Espinosa e Platão? Justifique.
4. Observando a leitura completa do texto qual a conclusão o autor procurou passar para o leitor? Justifique.

3º Ano – Ensino Médio
1. Pesquise sobre a obra “À Procura do Tempo Perdido de Proust relatando quais os principais assuntos tratados no livro.
2. Como o texto apresenta a visão do filósofo medieval Santo Agostinho sobre o amor? No que esta visão destoa da visão dos Estóicos?
3. Quais as semelhanças segundo o texto da visão do amor de Espinosa e Platão? Justifique.
4. Pesquise sobre a obra de Platão denominada de Fedro, citando seus principais aspectos e qual a sua mensagem central dentro do mundo científico.

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