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Tema 3 - O profissionalismo ou a incompetência?


Como podemos definir o limite do profissionalismo e da incompetência humana?
Quando pensamos nos padrões elevados de profissionalismo, a mera competência produz bons resultados. Quando não há padrões elevados de profissionalismo, mesmo o melhor dos profissionais vê o seu trabalho sabotado ou pura e simplesmente anulado pela inépcia dos seus colegas.
A diferença crucial entre o que parece e o que é, e entre o conhecimento superficial das coisas e o conhecimento íntimo das coisas, só pode adquirir-se quando se tem uma experiência profissional de excelência numa qualquer área. Há uma grande diferença entre ler umas coisas sobre estrelas nas horas vagas e ser astrofísico ou astrônomo. A diferença é saber as coisas realmente, em vez de sabê-las pela rama.
O profissionalismo, contudo, não se dá bem em sociedades da privacidade como a brasileira. Chamo sociedades da privacidade a sociedades nas quais a vida privada detém o monopólio das atenções das pessoas. Numa sociedade assim desempenha-se uma profissão sem profissionalismo nem gosto, sem excelência nem virtude, porque toda atenção, energia e investimento afetivo está na vida privada. A vida profissional é apenas uma chatice que é preciso aturar por não se poder viver dos rendimentos. Nas sociedades da privacidade o mundo é visto de maneira fundamentalmente infantil. As crianças, efetivamente, não trabalham: o princípio do prazer é onipresente e só com o tempo vão atendendo ao princípio do trabalho. Nas sociedades da privacidade o princípio do trabalho é visto como as crianças o vêem: mera chatice inevitável, e não fonte de realização, florescimento e virtude.
Nas sociedades da privacidade não há profissionalismo. Comprar um carro é muitíssimo mais importante do que ser competente na nossa profissão. E a discussão pública, nas sociedades da privacidade, é mero latido inconseqüente porque ninguém realmente sabe coisa alguma do que está a dizer, e nem sabe que não sabe por que não sabe o que é saber realmente de alguma coisa, em termos profissionais. Nas sociedades da privacidade a discussão pública é apenas conversa fiada de amadores e quem fala acaloradamente sobre algo não tem qualquer profissão relacionada com isso de que fala com tanta certeza.
Sendo verdade que os níveis de corrupção estão fortemente correlacionados com a sociedade da privacidade, precisamente por não se reconhecer outras fidelidades que não as privadas, é, contudo significativo que não ocorra à generalidade dos críticos que grande parte dos problemas dos governantes, das empresas e das escolas não é a corrupção sofisticada mas a incompetência simples, geralmente baseada num conhecimento das coisas pela rama. O conceito de incompetência, contudo, só tem força em sociedades que prezem o profissionalismo. Nas sociedades da privacidade a incompetência é admitida como a condição natural de qualquer profissional e chama-se "desenrascanço".
Ironicamente, a entrega profissional a um trabalho é uma das condições necessárias para uma vida humana com sentido.
Desidério Murcho
Publicado no jornal Público (25 de Março de 2008)

Questões para resolução (Todas as turmas)
1)Na visão do autor qual o conceito correto de profissionalismo? Justifique sua afirmativa.
2)Quando o autor afirma “A diferença crucial entre o que parece e o que é, e entre o conhecimento superficial das coisas e o conhecimento íntimo das coisas só pode adquirir-se quando se tem uma experiência profissional de excelência numa qualquer área” o que ele quis dizer?
3)O que são as sociedades de privacidade? Quais os principais aspectos negativos e positivos? Justifique sua resposta.
4)Como o autor explica a questão da incompetência no âmbito do profissionalismo?
5)Existem aspectos comuns encontrados no texto com a nossa vida cotidiana escolar e futuramente profissional? Quais são estes aspectos? Comente.

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