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Tema de Fevereiro - Aspectos Filosóficos da Existência de Deus

Caríssimos estudantes,

O objetivo central desta breve apresentação é mostrar ao ser humano, ele enquanto ente, singular e substancial, a importância da existência do SER ABSOLUTO, que Santo Tomás de Aquino descreve em sua Suma Teológica. Utilizaremos para tanto três grandes fontes de argumentação: A Aposta de Pascal, As Cinco Vias de Santo Tomás de Aquino e o Argumento Ontológico de Anselmo, obviamente não é minha intenção esgotar semelhante tema com apenas três fontes. A proposta dos três argumentos é apresentar Deus como uma possibilidade científica e perceptível pela razão, contrariando assim a teologia moderna que apresenta um Deus conhecido apenas pelas paixões.

I. Aposta de Pascal

A Aposta de Pascal não é um argumento direto da existência de Deus. É um argumento que poderá ser considerado calculista, a favor de um comportamento humano de acordo com a existência de Deus. Este argumento tem mais ou menos o conteúdo que se segue:

Se você acredita em Deus e nas Escrituras e estiver certo, será beneficiado com a ida ao paraíso.

Se você acredita em Deus e nas Escrituras e estiver errado, não terá perdido nada.

Se você não acredita em Deus e nas Escrituras e estiver certo, não terá perdido nada.

Se você não acredita em Deus e nas Escrituras e estiver errado, você irá para o fogo eterno.

No entanto, este argumento tende a ser uma maneira muito tendenciosa para se tentar convencer as pessoas da possibilidade da existência de Deus. A Aposta de Pascal afirma que se deve acreditar no Deus judaico-cristão, porém existem milhares outros deuses a serem considerados como existentes ou não. Acreditar no deus errado, de acordo com a maioria das religiões é punida da pior maneira possível em todas elas. Portanto, as chances de acertar acreditando no deus judaico-cristão são muito menores do que o estipulado por Blaise Pascal, que é de 50%. Outra coisa a se considerar seria o fato de existirem deuses não-documentados com propriedades bem diferentes do que as estipuladas pelas Escrituras (onipresença, onisciência, onipotência, benevolência e outros).

A Aposta de Pascal também pode ser usada para tentar se provar que outras religiões estejam certas (como trocar as Escrituras pelos Evangelhos ou pelo Corão, por exemplo). No entanto, o resultado, se devidamente analisado, mostrará que as possibilidades de se crer no deus estipulado são mínimas. A conclusão sobre o assunto é variável de acordo com as crenças de cada um. A Aposta, no entanto, independente das controvérsias religiosas, é um interessante jogo de raciocínio.

II. Tomás de Aquino
 
Tomás foi um grande gênio da metafísica e um dos maiores pensadores de todos os tempos. Italiano por parte de pai e normando pelo lado da mãe, Tomás nasceu no castelo de Roccasecca, a sul do lácio, em 1221. Sua educação primária se deu na abadia de Montecassino. Tomás prosseguiu seus estudos em Nápoles, na universidade fundada por Frederico II. Em 1244 ingressou na Ordem dos Dominicanos. Um ano depois se encontra em Paris, onde continua sua formação teológica com Alberto Magno. De 1248 a 1252, permanece em Colônia, ainda dedicado aos mesmos estudos, até que volta para Paris e prossegue suas atividades universitárias. Convidado pelo mestre a expor o seu ponto de vista sobre uma “quaestio” que estava sendo debatida, Tomás foi apelidado de “boi mudo” pelo seu comportamento bem reservado e silencioso. Expuseram o problema com tanto brio e tanta profundidade que levou Alberto Magno a exclamar: “este, que nós chamamos de `boi mudo`, mugirá tão forte que se fará ouvir no mundo inteiro!”

Tomás foi um incansável trabalhador que se empenhou em ordenar o saber teológico e moral acumulado na Idade Média. Como resultado produziu uma grande obra que possui mais de sessenta títulos. As mais importantes são os Comentários sobre as sentenças; Os Princípios; O Ente e a Essência; a Súmula contra os Gentios; as Questões sobre a Alma; Questões diversas e a Suma Teológica.

Foi surpreendido pela morte aos cinqüenta e três anos, em 7 de março de 1274, no mosteiro cisterciense de Fossanova, quando viajava para Lião, para participar do Concílio de Lião.

a) As cinco vias que levam a Deus

Para são Tomás a razão era capaz de provar a existência de Deus através de cinco vias, cinco caminhos. Para ele Deus é o primeiro na ordem ontológica, mas não na ordem psicológica, de modo que o homem deve estar à busca deste Deus já que ele se deixa encontrar, partindo dos efeitos e do mundo.

A razão natural não é o único modo pelo qual o homem pode chegar a Deus. Se esse fosse o único modo para o conhecimento de Deus, o gênero humano permaneceria envolto nas travas mais profundas da ignorância: o conhecimento de Deus, que para que os homens se tornem perfeitos e bons, constituiria o privilégio de um pequeno grupo de pessoas, e mesmo estes só chegariam a este privilégio após muito tempo de pesquisa.

O Deus de Tomás de Aquino é diferente do Deus dos gregos. No contexto tomista Deus é fonte do ser, de todo o ser, enquanto no contexto grego Deus é quem dá forma ao mundo, moldando uma matéria preexistente (Platão), ou dá origem ao cosmos, atraindo-o com sua própria perfeição. O Deus dos filósofos gregos não dá o ser, mas simplesmente um modo de ser. Deus não é o ser total, mas parcial, pois a matéria já existe desde toda a eternidade e é independente dele.

1. A primeira via toma a mutação como fundamento, afirmando que algumas coisas no mundo sofrem mudanças percebidas pelos sentidos. Partindo desta premissa, podemos dizer que tudo o que se move não se move por si próprio, mas é movido por outro. É preciso que a coisa seja em potência aquilo no qual se conclui a mutação final, sendo ela em ato, move, isto é, provoca mutação. Mover, neste caso, que dizer levar da potência em ato. O que é potência só pode ser levado a ser ato por aquele que é ato. É impossível que uma coisa seja potência e ato ao mesmo tempo sob o mesmo aspecto. Aquilo que é quente em ato pode ser ao mesmo tempo frio em potência. Assim, é impossível que um ente seja sob o mesmo aspecto e ao mesmo tempo, origem e sujeito de mutação, ou seja, mude-se a si mesmo. Deus é o criador do ser dos seres. Desse modo, as provas cosmológicas, que parecem ser tomadas em peso por Tomás, mudam de fisionomia, no sentido de que, mais de que o primeiro motor, Deus é ato puro — e essas provas, mais do que o primeiro motor leva ao primeiro ser. Antes de ser motor, Deus é criador e move quando cria. Mas não poderíamos recorrer a uma série de motores e coisas movidas? Não, porque o processo ao infinito desloca o problema e não o explica, ou seja, não encontra a razão última da mutação. Concluímos, então, que tudo que muda é movido por outro. E este motor primeiro é o que todos chamamos de Deus. É o ser imutável que produz movimento, mas não é movido por nenhum outro.

2. A segunda via tomista diz respeito à idéia da causa em geral. No mundo das coisas sensíveis, nos defrontamos com a existência com uma ordem de causas. Não é fácil, ou melhor, é impossível imaginar uma coisa que seja causa e efeito de si mesma, porque para tanto deveria ser anterior a si mesma, o que é impossível. Não é possível ir ao infinito na série das causas porque em todas as causas ordenadas a primeira é causa da segunda, a segunda é causa de uma terceira, a terceira de uma quarta e assim por diante. Anular a causa significa anular o efeito. Por isso, se não houver uma causa primeira também não haverá uma segunda, uma terceira e nem uma última causa. Mas, se fosse possível ir ao infinito na série das causas e efeitos? Não haveria, assim, uma causa primeira nem um efeito último e nem uma segunda terceira ou quarta causa, não explicando a causalidade. Por isso, impõe-se admitir uma causa primeira, não causada por nenhuma outra. E essa causa é Deus.

3. A terceira via é a da contingência. Em tudo encontramos coisas que tem possibilidade de ser e de não ser, constatando-se que algumas coisas são geradas e outras corrompidas, deixando de existir. Mas é impossível que existam para sempre, pois aquilo que pode não ser em algum tempo não o é. Se tudo pudesse não ser algum tempo não haveria nada de existente. Se isso fosse verdade, também nesse caso não haveria nada que pudesse existir, pois aquilo que existe necessita de outro já existente para começar a existir. E, se em algum tempo nada existia, seria impossível que o que existe começasse a existir e, sendo assim, nada existiria, o que é logicamente absurdo. Neste caso não podemos duvidar dos valores, ou melhor, do valor dos valores. Deve haver uma coisa cuja existência seja necessária. Mas toda coisa necessária tem sua necessidade causada por outra. Para que uma coisa exista, é necessário, portanto, que algo o faça existir, ou seja, se existe é porque participa do necessário. As criaturas já que nascem, crescem e morrem, são contingentes e, portanto, possíveis, isto é, não possuem o ser em virtude de sua essência. Essas criaturas existem mas podem não existir porque elas não existem necessariamente, podem não ser pois houve um tempo em que não eram. Sendo contingentes, as criaturas são possíveis. Se tudo fosse possível, teria havido um tempo em que nada existia e agora nada existiria. Por isso é preciso admitir uma causa que não foi de modo algum contingente ou possível, porque é sempre em ato. E essa causa que é sempre em ato se chama Deus.

4. A quarta via toma como base os graus de perfeição. Esse se refere aos graus hierárquicos que existe entre as coisas. Os graus de bondade, de verdade, nobreza e outras perfeições deste gênero. Mas os graus existem porque deve existir algo que possua o máximo da verdade, da bondade e da nobreza. E, sendo assim, existe algo que é verdadeiro, bom e nobre em grau máximo e, conseqüentemente, é ser, já que aquilo que é verdadeiro em grau máximo é também no ser. O máximo em cada gênero é a causa de tudo naquele gênero: por exemplo, o fogo, é causa de todas as outras coisas quentes. E para todos os entes deve existir algo que é causa do seu ser, de sua bondade de sua perfeição. Se o fogo é quente em grau máximo e é ela a causa de todas as coisas quentes, quem deu essa quentura ao fogo? Dizemos que foi Deus. Absolutizando a verdade, a bondade, a nobreza e outros Tomás afirmam que todas as coisas que são tidas como verdadeiras, boas etc, o são em relação a um ser de modo absoluto. Pose-se dizer que esses entes participam da perfeição de um ser que permite a participação sem ser partícipe, porque é fonte de tudo aquilo que existe de algum modo.

5. A quinta e última via está relacionada à ordem das coisas. De acordo com o finalismo aristotélico adotado por Tomás de Aquino, todas as coisas tenderiam a um fim. A regularidade co que alcançam seu fim mostrariam que eles não estão movidos por acaso. Está claro, portanto que não alcançam um fim por acaso, mas por intenção. Tudo aquilo que não tem conhecimento não pode se dirigir em direção a um fim, a menos que seja guiado por um ser que seja dotado de conhecimento e inteligência. Dizemos que existe um ser inteligente que dirige todas as outras coisas. E esse ser é Deus. Se este agir em função de um fim constitui nos entes um certo modo de ser, qual será a causa dessa regularidade, ordem e finalidade encontrada em alguns entes? E por não poderem conter em si próprios o conhecimento, é preciso remontar a um Ordenador, dotado de conhecimento e dar ser aos entes deste modo como agem, para um fim.

III. Argumento Ontológico

O argumento ontológico é um argumento concebido por Anselmo de Aosta, arcebispo da Cantuária no século XII, a pedido de seus monges. Solicitaram-no que lhes desses motivos racionais para a crença em Deus, em apoio à fé. Anselmo, depois de muito refletir, apresentou alguns argumentos racionais em favor da existência de Deus, entre os quais o que se tornou o mais famoso, e de maior importância na filosofia, o argumento ontológico. O argumento é o seguinte:"Certamente podemos conceber a idéia de um ser do qual não podemos pensar nada de mais perfeito. Ora, um ser que não existe é menos perfeito que um ser que existe. Logo, o ser do qual não podemos pensar nada de mais perfeito existe”. Tal argumento somente se aplica ao ser absoluto, isto é, ao ser que contenha todas as perfeições - Deus. Não se aplica a um ente qualquer possa ter alguma perfeição, e não todas, pois nesse caso não há a necessidade lógica de que a perfeição "existência" seja-lhe inerente. Somente o ser absoluto, para sê-lo, terá de existir, por definição. Disso decorre que, se o conceito de absoluto fizer sentido, necessariamente existe o ser absoluto. O argumento ontológico foi replicado por Gaunilo, e treplicado por Anselmo.

Muitos filósofos importantes estudaram o argumento, com diversas concepções. Por exemplo, Kant o criticou, enquanto Hegel o defendeu.

Muito atenciosamente,

Magister Leandro Andrade da Rocha
“Igne veni mittere in terram et quid volo”
(Evangelium Secundum Lucam, 12,49)

Questionário para entrega

1) Quais os principais aspectos abordados no texto demonstram a existência de Deus na visão de Blaise Pascal?

2) Como Tomás de Aquino apresenta sua concepção do Deus? Retire do texto trechos que comprovem sua escolha.

3) Resuma brevemente as "Cinco Vias" apresentadas por Tomás de Aquino.

4) No que consiste o "Argumento Ontológico"? Como ele pode ser aplicado?

5) Escolha apenas um dos argumentos apresentados (Pascal, Tomás ou Ontológico) e faça uma breve defesa ou crítica sobre o argumento escolhido.

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