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"A Educação da Sofia de Rousseau e da Lotte de Goethe: Pode o Romantismo Ser Reacionário?"



Ana-Isabel Aliaga-Buchenau

O Romantismo é freqüentemente visto como rompimento com a ordem estabelecida, como mudança revolucionária do até então existente. Diz-se que ele se contrapõe às idéias postuladas por representantes do Iluminismo e Neo-classicismo(1). No mundo da pedagogia, a obra de Rousseau, Émile, constituiu-se numa espécie de revolução. Neste ensaio mostro que as noções de Rousseau são novas e inovadoras somente com referência à educação de meninos. Ao contrário, sua visão acerca de meninas e mulheres é bastante reacionária. Uma comparação entre Sofia, a menina em Émile de Rousseau, e Lotte, a heroína em The Sufferings of Young Werther de Goethe, apresenta semelhanças entre as duas jovens mulheres. Eu postulo que o Romantismo é basicamente reacionário, como pode ser visto nesta comparação.
As idéias de Rousseau são realmente revolucionárias quando comparadas à situação da educação das crianças e dos métodos educacionais do século XVIII, como descrito na seguinte citação:
“A prática em uso era [os bebês] serem cuidados por amas-de-leite...que freqüentemente negligenciavam-nos terrivelmente. Higiene, realmente não existia... tanto eles continuaram sendo protegidos de certos males como ar frio e exercícios, como eram espancados por desobediência...Se eles estivessem ou não felizes, era... extremamente irrelevante”(2).

Rousseau se opôs a cada aspecto dessa forma de educação, sugerindo a amamentação de bebês, roupas folgadas, aprendizagem pela experiência e, o mais importante, o objetivo de fazer as crianças felizes. Uma das mais revolucionárias contribuições de Rousseau é que ele vê as crianças como crianças, que acredita que elas são boas por natureza, e que a educação deveria ser “negativa”. Isto é, um educador deveria incrementar as boas inclinações de uma criança, não a instruindo e dirigindo diretamente, mas ajudando as boas coisas a emergirem. Em Émile, um tutor exemplar eleva a criança ideal, Emílio, à perfeição. Em vez de um modo mecanicista de educação, o tutor usa o “método negativo”. Além disso, ele tem a função de proteger a criança da influência da sociedade(3).

Então, e sobre as mulheres? Em Émile, Rousseau apresenta Sofia, a menina educada para se tornar a mulher perfeita como esposa de Emílio. Depois de estabelecer que as mulheres não são iguais aos homens ? a mulher “tem os mesmos órgãos, as mesmas necessidades,...[a mesma] máquina”(4), mas homens e mulheres “devem ser distintos em constituição e temperamento”(5)?, Rousseau esboça uma educação muito diferente para mulheres.

Aparentemente, a educação das mulheres parece ser baseada em um semelhante princípio “negativo”, como a educação masculina. De uma maneira “negativa”, Rousseau pretende que a inferioridade natural da mulher e suas tendências para ser conquistadora, astuta e apaixonada por natureza sejam respeitadas e conduzidas por caminhos desejáveis. Esse direcionamento já indica que o processo real de educação é muito mais positivo do que “negativo”: os professores “ensinam-na, limitam-na, educam-na, explicam para ela”(6). As meninas “deveriam ser acostumadas cedo à restrição”(7). Uma lição mais importante para as mulheres é aprender sobre seus deveres e, além disso, “a amar esses deveres”(8). Os deveres incluem tarefas domésticas, mas não necessariamente ler ou escrever numa idade muito prematura. A natureza doméstica da educação de mulheres enfatiza o papel de mãe e dona de casa. Além desse, o único dever que uma mulher tem é ser esposa.


Enquanto que Emílio (leia-se: um homem) é a representação do individualismo romântico e da liberdade em sociedade, as mulheres são criaturas dependentes. Elas dependem de suas famílias, seus maridos e da sociedade. Uma mulher tem que aprender a subserviência porque ela terá que “suportar injustiças até mesmo da... mão [de seu marido]”(9) e qualquer desejo de liberdade, “somente multiplicaria o sofrimento da esposa e os maus tratos do marido”(10). Em contraste com Emílio e os homens, as mulheres não são livres na sociedade. Ao contrário, sua mais elevada meta deve ser a de preservar sua honra, algo que elas não podem fazer sozinhas porque “a honra da mulher não depende apenas de sua conduta, mas de sua reputação”(11).


Até mesmo no contexto de seu tempo, Rousseau surge como uma voz muito conservadora entre contemporâneos como Fénelon e Madame de Maintenon, que propagaram uma visão muito emancipada das mulheres(12). Embora alguns aspectos de seu tratamento às mulheres sejam obtidos a partir de trabalhos anteriores e reflitam atitudes reacionárias, Rousseau aponta para o futuro com sua representação da mulher perfeita e ideal, Sofia ? futura esposa de Emílio. Sofia é, em muitos aspectos, um protótipo da heroína romântica do início do século XIX, representada ali pela idealizada Lotte em The Sufferings of Young Werther, de Goethe. A surpreendente conclusão que precisa ser tirada dessa comparação é que alguns aspectos do Romantismo são muito reacionários, já que, como tem sido apontado, Sofia é retratada de igual modo e conduzida semelhantemente à heroína romântica Lotte(13).
Rousseau atribui muitas características à Sofia e às mulheres em geral, que são aquelas mais altamente apreciadas pelos românticos. As mulheres têm intuição, paixão e imaginação. Ao invés de razão, como Emílio, Sofia possui sensibilidade. Esta é exatamente a mudança entre a “Idade da Razão” e a “Idade da Sensibilidade”:

“Se não as paixões, em nosso sentido da palavra, pelo menos a sensibilidade vem substituir a razão como a pedra de toque da vida, quando a suscetibilidade emocional de um coração afável era apreciada mais altamente do que o estreito julgamento de uma cabeça fria”(14).

Na opinião de Rousseau, Sofia é “muito sensível”(15). Embora ele não aprecie ainda a sensibilidade, como mais tarde os românticos o farão, ele já atribui esta característica a Sofia. Lotte também é muito sensível, de tal modo que Werther vê seu futuro marido como impróprio para estar com ela uma vez que a este falta semelhante sensibilidade(16).


Uma característica semelhante a sensibilidade é a intuição. As mulheres, de acordo com Rousseau, vivem de intuição, e elas devem usá-la para “ter um completo conhecimento da mente dos homens”(17) e para “ler mais acuradamente o coração do homem”(18). Ler o coração ? um órgão que assume proeminência sem precedentes no pensamento romântico ? é uma capacidade que Sofia compartilha com a heroína romântica Lotte. Quando se torna claro como Werther está desesperadamente apaixonado, Lotte toma uma “firme resolução” de mantê-lo distante, mas não consegue dizer-lhe: “e se ela adiasse, então seria um sincero, amigável desejo de poupá-lo, porque ela sabia quanto isto custaria a ele, que seria sem dúvida quase impossível para ele”(19).

Além da intuição, a paixão é um outro aspecto de sensibilidade agora substituído pela razão e racionalidade. Ambas, Sofia e Lotte, têm paixão em grau elevado. De acordo com Rousseau, mulheres podem “apenas esconder a paixão que as devora”(20), o que ele vê como um fato que apóia sua demanda pela restrição exercida sobre as mulheres. Entretanto, quando Sofia é “devorada” pela paixão, ela não é reservada, mas ela se fixa em um herói imaginário e “[ama-o]”...com uma paixão que nada poderia curar”(21). Lotte é igualmente “perturbada”(22) por suas emoções e paixões, como Sofia. Tendo repelido os avanços de Werther por longo tempo, Lotte finalmente sucumbe a sua paixão: “Seu senso tornou-se confuso, ela apertou as mãos dele, apertou-as contra o seu peito”(23).

Ambas as mulheres reagem como qualquer romântico teria feito em face do impossível ou rejeitado amor. Quando Sofia é mal sucedida no amor com um herói imaginário, seu “temperamento” muda e ela se torna melancólica: quando Lotte percebe que não pode ter Werther, e que não quer ter mais ninguém, ela tem sentimentos semelhantes aos de Sofia: “seu espírito...sentiu o fardo de uma melancolia que sabe que o projeto de felicidade está fracassado”(24). A melancolia é outro aspecto da sensibilidade e um ideal no pensamento romântico.

Rousseau considera emoções, e derramamento de lágrimas em particular, em termos positivos. Igualmente, estas são as características mais idealizadas pelos românticos. Quando Emílio vem à casa de Sofia, ele ouve a história de Telêmaco e verte algumas lágrimas de emoção pelos protagonistas. Sofia, “vendo-o chorar, está pronta para misturar suas lágrimas com as dele”(25). A emoção vem da forte capacidade de empatia de Sofia e de Emílio. Ambos mostram o tipo de empatia mais tarde tão venerado pelos românticos. Lotte e Werther são muito parecidos em sua reação emocional diante de uma obra literária. Ambos choram ao ouvir Ossian, e perdem-se em lágrimas diante da simples invocação do nome de um poeta romântico alemão ? Klopstock(26). A literatura evoca lágrimas em ambas, Sofia e Lotte.
Mais notavelmente, elas assemelham-se mutuamente em suas capacidades imaginativas. Ambas as mulheres têm muita imaginação, estimuladas pela leitura literária. Rousseau apresenta-nos duas alternativas conclusivas para as poderosas façanhas imaginativas de Sofia. Ela aprendeu tanto sobre a virtude que o único homem que a atrai é “o herói imaginário” de sua leitura(27), Telêmaco. No final feliz de Rousseau, Sofia consegue transferir seu amor por Telêmaco para Emílio, o qual foi apreendido do próprio Telêmaco. Porém, na versão alternativa que ele somente expressa como um final possível, envolvida em sua fúria, Sofia é considerada louca, ela se torna uma proscrita, e finalmente morre por causa da força da sua imaginação. Esta Sofia é muito sensível e romântica, portanto, acaba morrendo.
Lotte também tem uma imaginação muito forte, que a leva a identificar-se com eventos descritos, por exemplo, em Ossian. Ao ouvir Werther ler para ela tal obra, ela começa a chorar. Ela pode então imaginar o que Werther estaria sofrendo e “uma premonição de sua terrível intenção pareceu-lhe perpassara alma”(28). Lotte é também muito “sensível e romântica”, como se pode notar quando Werther suicidou-se: “havia medos na vida de Lotte”(29).

As semelhanças entre Sofia e Lotte vão mais além do que as qualidades emocionais que elas compartilham. Elas são também, ambas, educadas para a mesma função futura ? a de mãe e esposa. Durante o século XVIII, não era incomum para as mulheres, ao menos nos centros urbanos, entregarem suas crianças para amas-de-leite. Ao mesmo tempo, romances extra-conjugais eram ocorrências bastante normais(30). Foi somente no final do século, com a ascensão do Romantismo, que a condição de mãe e esposa passou a ser idealizada para estimular as mulheres a verem nela maior importância(31). Rousseau é um defensor de tais noções românticas na medida em que vê a importância das crianças, a importância da maternidade e de ser uma esposa perfeita. Na sua descrição de Sofia, ele estabelece essas virtudes de mãe e de esposa, que se tornariam importantes durante o século XIX e que têm sido vistas como reacionárias pela crítica recente. As mulheres deveriam ser conduzidas e educadas para dois propósitos, como ditames da natureza. Elas existem para tornar-se mães, donas de casa e esposas.

Sofia é especificamente levada a preparar-se para as suas funções domésticas. Rousseau é combatido precisamente por defender esse “aprendizado doméstico” planejado para Sofia(32). Sofia aprende em idade muito tenra a costurar, uma atividade que corresponde à utilidade prática esperada da educação para meninas, já que ela precisará estar apta a fazer suas próprias roupas. Mais importante, ela estuda os “detalhes da administração doméstica; ela entende de cozinhar e limpar; ela sabe os preços da comida, e também como escolhê-la; ela pode fazer contas corretamente, ela é a governanta de sua mãe”(33). De fato, ela deve aprender matemática antes de ler e escrever, já que ela é mais importante para calcular um orçamento doméstico. Rousseau nega expressamente às mulheres qualquer outra forma de ocupação de lazer, tal como “escrever versos em sua mesa de toalete rodeada por folhetos de todo tipo e com notas sobre o papel pintado”(34). Essas são as atividades domésticas que fazem uma mulher valiosa aos olhos de um homem.


Novamente, Lotte é muito semelhante a Sofia, já que homens, quer Albert, Werther ou seu pai, apreciam-na por suas habilidades domésticas. O que estimula a fantasia de Werther sobre Lotte não é somente sua beleza aparente, mas, mais importante, sua habilidade doméstica: “segurando um pão de centeio e cortando para os pequenos à sua volta, corta-o em pedaços apropriados para suas idades e apetites”(35).
Tanto Sofia quanto Lotte devem executar deveres domésticos, cuidando da casa e da família. A mais importante função delas é a de mãe no lar. Como mãe, Sofia mantém uma família unida: “ela forma um laço entre pai e criança...Que cuidado amoroso é exigido para preservar uma família unida!”(36)
A idealização da maternidade é até mais forte no caso de Lotte, porque ela torna-se mãe prematuramente. Quando sua mãe morre, ela promete ser mãe para seus muitos irmãos com “coração de mãe e olhos de mãe” e com a “lealdade e a obediência de uma esposa” para consolar o pai(37). Como os homens na vida dela observam: Lotte “tem se tornado uma verdadeira mãe,... nenhum momento de seu tempo tem sido gasto sem ação amorosa, sem alguma labuta”(38).

Tanto Lotte quanto Sofia, devem tornar-se mães e donas de casa. A idealização da maternidade começou no final do século XVIII. A noção romântica da mãe ideal é tão forte que ainda existe hoje. Como o crítico Nancy Senior aponta, a noção de amor de uma mãe por suas crianças é um “conceito cultural”(39):
“Uma grande tentativa foi feita para persuadir as mães de que elas seriam saudáveis, felizes e respeitadas, e encontrariam satisfação em devotar-se às suas crianças”.(40)

Tanto a descrição das mulheres por Rousseau, Sofia em particular, como a descrição da maternidade de Lotte, parecem ser parte daquela tentativa. Embora Rousseau se apresente reacionário e conservador, ele parece defender algo de novo para o século XVIII, que assumiria grande importância no Idealismo Romântico, e continuaria valioso no século XIX em muitos países(41). Além das tarefas da maternidade e dever doméstico, as mulheres têm que ser uma esposa.

O problema de ser mulher é que existe uma dicotomia entre a esposa como objeto de desejo sexual e, ao mesmo tempo, um anjo de virtude intocável. Esta dicotomia, já descrita por Rousseau, torna-se até mais forte durante o último movimento romântico. Uma mulher poderia tanto ser um demônio quanto um anjo(42). Neste primeiro estágio, uma mulher como Sofia teve que ser ambos. De um lado, ela teve que ser a sedutora que é fisicamente atraída pelo homem. Por outro lado, ela teve que ser virtuosa e com uma reputação imaculada como a perfeita mulher/anjo.

Vamos examinar primeiro as mulheres como sedutoras. O poder para seduzir um homem dá à mulher uma grande força:

“A natureza tem dotado a mulher com um poder de estimular as paixões do homem mais do que o poder do homem de satisfazer essas paixões, e assim o tem feito... compeliu-o por sua vez a empenhar-se em agradá-la”.(43)


Quando Emílio conhece Sofia, “o charme do encanto feminino invade seu coração, e ele começa a instilar o veneno com que é intoxicado”.(44)

Do mesmo modo, Lotte inspira desejo em Werther. Embora ele não faça nenhuma reivindicação a ela, ele sente que é quase impossível não “desejar tão amavelmente um objeto como Lotte(45). Lotte parece ter o mesmo poder sobre o homem que Rousseau concedeu a Sofia. Ela deve resistir a qualquer avanço, mas sua resistência é o que atrai os homens mais profundamente. De maneira semelhante, Lotte parece manipular a paixão de Werther. Quando Werther toca Lotte acidentalmente, isto desperta seu desejo por ela. Aos olhos dele, porém, ela é inocente de qualquer encorajamento. Como uma maneira semelhante de dizer não, mas aparentemente encorajando a intimidade, Lotte diz a Werther para parar de beijá-la, mas ao mesmo tempo prossegue. Parece que Rousseau expôs os mesmos princípios acerca das manipulações de Sofia valiam para Lotte.

Contra toda convenção, Rousseau encoraja as práticas de cantar, dançar e tocar piano para mulheres. Sofia aprende todas essas artes quando menina(46). Lotte também adquiriu essas habilidades: quando ela está de mal humor, ela “canta... um par de quadrilhas, saltitando para cima e para baixo no jardim, afastando-se imediatamente”(47). Como Sofia, Lotte também toca piano para exprimir suas emoções, e novamente ela admite que “se algo me aborrece e eu martelo uma quadrilha em meu velho piano, fora de melodia, isso torna novamente tudo certo”(48).

Rousseau não somente aconselha as meninas a que aprendam essas artes para serem capazes de agradar os homens, como encoraja os pais a deixar suas filhas a irem a bailes e eventos semelhantes. Rousseau teme que, se esses prazeres forem negados às meninas, elas, tentarão compensar a falta desses divertimentos durante o casamento. Lotte adora dançar, e ela comparece a um baile com Werther. Ela está animada e feliz nessa diversão, como somente acontecia antes de ela estar casada com Albert. É durante esse baile que Werther mais nota o charme pessoal de Lotte. O modo no qual “os pequenos pés de Sofia pisam ligeiramente, facilmente, e graciosamente”(49) é semelhante aos movimentos de Lotte cheios de “charme... [e] agilidade”(50). Tanto Sofia como Lotte aprendem a ser sedutoras.
Por outro lado, a maior parte da educação delas é ajustada para produzir nelas esposas perfeitas. Para se tornar uma esposa perfeita, Sofia aprendeu as tarefas domésticas, a forma forte de submissão que a faz capaz de aceitar qualquer injustiça de seu marido. Sua educação a faz o perfeito ponto de apoio para Emílio. Sofia espera tornar-se uma esposa perfeita, mas ela também espera encontrar um marido perfeito. Lotte tem sentimentos semelhantes sobre ser esposa como seu primeiro dever, e ter um “bom” marido:
“Ela [Lotte] viu-se agora unida para sempre com o marido cujo amor e lealdade ela sabe,... uma boa esposa poderia encontrar [nele] a felicidade de sua vida...”(51)

Embora essa descrição pareça uma relação perfeita, não se pode esquecer, como Rosenberg aponta, que “as mulheres eram artigos comerciáveis”: as esposas eram consideradas objeto e propriedade(52). De acordo com Rousseau, era do interesse da mulher tornar-se propriedade apreciada, porque só poderia ser cuidada apropriadamente se encontrasse um homem. A necessidade urgente de Sofia de encontrar um marido enfatiza este ponto. Lotte também se considera “propriedade” de Albert(53).
Apesar dessas noções bastante conservadoras sobre o casamento, Rousseau adota um mesmo ideal muito romântico acerca dele. Ele permite a Sofia escolher seu próprio marido, como o pai dela lhe explica:
“Há uma conveniência natural, uma conveniência de uso estabelecido, e uma conveniência que é meramente convencional. Os pais podem decidir pelas duas últimas e os filhos eles mesmos podem decidir pela primeira”(54).

Esta é uma noção romântica de casamento que contraria aquela sustentada antes, em que era dado aos pais o poder absoluto para escolher um marido ou esposa. Isto não dá completa liberdade a Sofia porque a imagem do marido perfeito tem sido cuidadosamente plantada em sua imaginação, mas permite felicidade e amor entre duas pessoas ao invés de dinheiro e poder como razões para uma união.
Lotte também parece ter escolhido seu próprio marido. Ela descreve Albert como uma “boa pessoa”(55). Quando sua mãe morre, ela dá sua benção a essa união, como Lotte descreve para Werther:
“Albert, você estava no quarto. Ela [a mãe] ouviu os passos de alguém e indagou, e você veio até ela, e então ela olhou para você e eu com o olhar calmo e confortado de quem sabia que nós seríamos felizes, felizes juntos”(56).

Tanto Sofia como Lotte escolhem seus maridos, mas certamente com o consentimento de seus pais. Rousseau é bastante romântico em suas noções sobre o amor. Porém, é interessante notar que ele não prevê um final feliz. Émile termina com o anúncio feliz de que Sofia, agora casada com Emílio, está grávida e que o tutor ajudará com a educação da nova criança. Porém, em seqüência, Les Solitaires, Rousseau descreve como Emílio perde o interesse por sua mulher após a morte da criança, e como Sofia encontra um amante e finalmente morre. Afinal de contas, sua educação e a escolha perfeita, o casamento, não funcionou. O casamento de Lotte também parece ser problemático, já que ela não pode negar sua atração por Werther. Quando ela o vê pela última vez, seu marido Albert nada sabe sobre isto, e ela não lhe fala sobre seus sentimentos e preocupações. Por conseguinte, ninguém impede Werther de seu suicídio e o livro termina com a menção de temor pela vida de Lotte. Esses eventos não pressagiam um futuro muito positivo para o casal. Embora Rousseau postule noções de amor romântico, também vê nele a possibilidade de drama e tragédia. O destino de Lotte prova quão profundamente Rousseau descreveu uma heroína romântica em sua Sofia.

A questão formulada no princípio permanece. Rousseau tem uma atitude ambivalente das idéias românticas. Por um lado, seu herói Emílio é dotado de atributos românticos como bondade natural, individualismo e liberdade. Por outro lado, Rousseau pinta um quadro muito conservador e reacionário de Sofia e das mulheres em geral. Num exame mais profundo, Sofia tem muitas características românticas que a fazem bem parecida com Lotte, uma verdadeira heroína romântica. Se Rousseau é tão reacionário e ao mesmo tempo romântico acerca das mulheres, poderia significar então que o Romantismo, ao menos enquanto se refere às mulheres, sustenta valores reacionários e conservadores? Poderia haver uma diferença entre aquilo que o Romantismo prevê para os homens e as mulheres, em termos de liberdade e individualismo? A partir da literatura do Romantismo e da maior parte do século XIX, eu postulo que ao menos uma forma de idealização romântica das mulheres as tornou prisioneiras, as fez dependentes e as limitou à imagem de anjo ou mãe e esposa perfeitas ? precisamente para conter a potencial ameaça que existe na figura feminina de sedutora ou demônio(57). Muito da literatura americana, francesa e alemã do século XIX ainda contém algumas dessas noções originadas nos movimentos românticos. O caráter doméstico vitoriano enfatizou uma semelhante imagem das mulheres: Effi Briest e Emma Bovary falham precisamente porque elas são românticas de coração, mas não podem se conformar à visão romântica idealizada da condição feminina.

 
A influência de Rousseau tem sido imensa, e ele continua incitando opiniões no século XX. Alguns aspectos da imagem da mulher ideal são ainda enfatizados do mesmo modo nos dias atuais. As mulheres devem ser boas mães, o casamento é a meta a alcançar, e alguns igualmente sugerem nos anos noventa educar homens e mulheres novamente separados(58).
Estamos revertendo à idéia de “esferas separadas”?

The Education of Rousseau’s and Goethe’s Lotte: Could Romanticism Be Reactionary? Ana Isabel Aliaga Buchenau. University of North Carolina at Chapel Hill. Tradução: Lígia Maria Cardoso. Revisão: Marco Antônio Frangiotti.

Notas:
1 Ver Lilian R. Furst, Romanticism (London: Methuen, 1976). Os Problemas de Definição são Tratados nas pgs. 1-14.

2 Peter Jimack, Rousseau; Émile (London: Grant & Cutler Ltd. 1983) 46.

3 Jimack 49.

4 Jean Jacques Rousseau, Émile (New York: Dutton, 1966) 321.

5 Rousseau 326.

6 Helen Evans Misenheimer, Rousseau on the education of Women (Washington, DC.: UP of America, 1981) 82.

7 Rousseau 332.

8 Rousseau 349.

9 Rousseau 359.

10 Rousseau 333.

11 Rousseau 328.

12 Fenelon havia defendido uma forma muito diferente e mais “liberada” de educação de mulheres, Madame de Maintenon havia secularizado a educação de meninas criando a escola Saint Cyr com um currículo bem diferente daquele que Rousseau pretendia para Sofia, e Madame de Lambert havia igualmente postulado uma forma mais liberada de educação de mulheres. Veja Misenheimer, Rousseau on the Education of Women (Washington, DC.: Up of America, 1981) 47-49.

13 O adjetivo “romântico” é usado neste ensaio como pertencendo ou derivando de Romantismo.

14 Furst 27.

15 Rousseau 359.

16 "Uma certa falta de sensibilidade, uma falta – tome isto como você quiser; que o coração dele [Albert] não bata por compaixão – oh! – um trecho de um livro de amor". Johann Wolfgang von Goethe, The Sufferings of Young Werther and Elective Affinities, transl. Bayard Quincy Morgan (New York: The Continuum Publishing Company, 1987) 74.

17 Rousseau 350.

18 Rousseau 350.

19 Goethe 96.

20 Rousseau 352.

21 Rousseau 367.

22 Rousseau 366.

23 Goethe 107.

24 Goethe 100-101.

25 Rousseau 377.

26 Goethe 32-33.

27 Rousseau 368.

28 Goethe 107.

29 Goethe115.

30 Nancy Senior, "Rousseau's Émile on Motherhood, in the Context of its Time," in Jean Terrasse, ed., Rousseau et l'êducation: êtudes sur l'Émile (Sherbrooke, QuÇbec, Canada: Editions Naaman, 1983) 93.

31 Pretende-se que essas observações sejam aplicadas particularmente às mulheres da elite e classe média.
32 Misenheimer 80.

33 Rousseau 357.

34 Rousseau 372.

35 Goethe 27.

36 Rousseau 324.

37 Goethe 59.

38 Goethe 47.

39 Senior 95.

40 Senior 95.

41 Particularmente na América, o culto do caráter doméstico e da maternidade é uma idéia predominante no conceito de mulher no século XIX.

42 Cf. Sandra M. Gilbert and Susan Gubar, The Madwoma n in the Attic: The Woman Writer and the Nineteenth-Century Literary Imagination (New Haven: Yale UP, 1979). Porém, veja o argumento de Nina Auerbach's argument in Woman and the Demon: The Life of a Victorian Myth (Cambridge, Mass.: Harvard UP, 1982). Ela argumenta que as duas categorias não são tão distintas quanto se pensa, que a figura de anjo possui tanto poder e que a figura do demônio tenha características angelicais.

43 Rousseau 323.

44 Rousseau 378.

45 Goethe 46.

46 Rousseau 337 and 350.

47 Goethe 37.

48 Goethe 37

49 Rousseau 357.

50 Goethe 30.

51 Goethe 100.

52 Aubrey Rosenberg, "Property, Possession and Enjoyment. Woman as Object, Subject and Project in the Émile," in Jean Terrasse, ed., Rousseau et l'êducation: êtudes sur l'Émile (Sherbrooke, Quebec, Canada: êditions Naaman, 1983) 103.

53 Goethe 97.

54 Rousseau 362.

55 Goethe 31.

56 Goethe 60.

57 "Se...a mulher é idealmente um anjo doméstico...ela continuamente ameaça tornar-se uma apaixonada criatura rebelde, impelida por desejos proibidos”. Alan Richardson, Literature, Education and Romanticism: Reading as Social Practice, 1780-1832 (Cambridge: Cambridge UP, 1994), 207.

58 Na Alemanha, muitos pedagogos indicam que as meninas mais aprenderiam longe de meninos mais agressivos e presunçosos, nas mesmas circunstâncias. Algumas experiências com educação separada estão sendo feitas atualmente. De acordo com Raleigh News and Observer, vários artigos em meses recentes têm apontado para o sucesso da educação separada em ambiente escolar.

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